domingo, 11 de setembro de 2016

Pentecostalismo fundamento biblico


             FUNDAMENTOS BÍBLICOS DA TEOLOGIA 
                                PENTECOSTAL.


                                       Escritor Mauricio Berwald

                           O CASO ÉFESO  INTRODUÇÃO

Considerando as celebrações do Centenário das Assembléias de Deus no Brasil, que terão lugar em junho do próximo ano, mas cujos ecos já podem ser ouvidos de norte a sul de nosso país;

Considerando o avanço do Movimento Pentecostal não somente no Brasil, mas em todo o mundo. Hoje, aliás, segundo algumas estatísticas, a Comunidade de Fé Pentecostal é o maior grupo cristão depois da Igreja Católica Apostólica Romana;

Considerando a completude bíblico-teológica da doutrina que nos legaram os pais-pioneiros. Uma doutrina que se acha em plena harmonia com as Sagradas Escrituras e com os credos mais queridos e utilizados pela cristandade sadia e conservadora;

Considerando, enfim, nossas responsabilidades teológicas e doutrinárias depois de cem anos de uma história repleta de triunfos e conquistas em Cristo Jesus;

Demanda-se que os teólogos e os membros do magistério eclesiástico das Assembléias de Deus, nos congreguemos, a fim de refletirmos sobre os rumos que vai tomando nossos mais caros e celebrados artigos de fé. Isto porque, ninguém o ignora, nossa igreja convive com três distintas teologias: a oficial e formalmente aceita pelos órgãos convencionais – bíblica e ortodoxa; a acadêmica, construída em faculdades e seminários, alguns destes liberais e comprometidos com o deus deste século; e a informal, praticada nos subterrâneos da denominação por grupos, nem sempre referendados pelo ministério, que vem dando generosos espaços a um misticismo extravagante, extrabíblico e que tem causado constrangimentos aos pastores e líderes de nossa comunidade de fé.

No intuito de oferecer subsídios para o nosso aperfeiçoamento teológico-doutrinário, buscarei o exemplo de uma igreja do Novo Testamento que soube como aparelhar-se bíblica e teologicamente para enfrentar sérias crises no campo da ortodoxia e da apologética. Refiro-me à Igreja de Éfeso. Ela mostrou-se réproba em apenas num item: o amor. Mas, repreendida pelo Senhor Jesus, soube como reaver sua excelência.

I. A FUNDAÇÃO DA IGREJA DE ÉFESO
Paulo chegou a Éfeso no final de sua segunda viagem missionária por volta do ano 52 d.C. Mas foi durante a sua terceira viagem, que fundou uma igreja que viria a ser reconhecida, em toda a cristandade primitiva, por sua excelência doutrinária e teológica. Nessa igreja, o apóstolo permaneceu três anos.

A fundação da Igreja de Éfeso foi acompanhada de um grande avivamento pentecostal. Eis alguns de seus sinais:

1. O derramamento do Espírito Santo. “Aconteceu que, estando Apolo em Corinto, Paulo, tendo passado pelas regiões mais altas, chegou a Éfeso e, achando ali alguns discípulos, perguntou-lhes: Recebestes, porventura, o Espírito Santo quando crestes? Ao que lhe responderam: Pelo contrário, nem mesmo ouvimos que existe o Espírito Santo. Então, Paulo perguntou: Em que, pois, fostes batizados? Responderam: No batismo de João. Disse-lhes Paulo: João realizou batismo de arrependimento, dizendo ao povo que cresse naquele que vinha depois dele, a saber, em Jesus. Eles, tendo ouvido isto, foram batizados em o nome do Senhor Jesus. E, impondo-lhes Paulo as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo; e tanto falavam em línguas como profetizavam. Eram, ao todo, uns doze homens” ( At 1.-7).

2. Proclamação ousada da Palavra de Deus. “Durante três meses, Paulo freqüentou a sinagoga, onde falava ousadamente, dissertando e persuadindo com respeito ao reino de Deus” (At 19.8).

3. Realização de sinais, milagre e prodígios. “E Deus, pelas mãos de Paulo, fazia milagres extraordinários, a ponto de levarem aos enfermos lenços e aventais do seu uso pessoal, diante dos quais as enfermidades fugiam das suas vítimas, e os espíritos malignos se retiravam” (At 19.11,12).

4. Expulsão de demônios e espíritos imundos. “E alguns judeus, exorcistas ambulantes, tentaram invocar o nome do Senhor Jesus sobre possessos de espíritos alignos, dizendo: Esconjuro-vos por Jesus, a quem Paulo prega. Os que faziam isto eram sete filhos de um judeu chamado Ceva, sumo sacerdote. Mas o espírito maligno lhes respondeu: Conheço a Jesus e sei quem é Paulo; mas vós, quem sois? E o possesso do espírito maligno saltou sobre eles, subjugando a todos, e, de tal modo prevaleceu contra eles, que, desnudos e feridos, fugiram daquela casa” (At 19.13-16).

5. Supressão do ocultismo. “Também muitos dos que haviam praticado artes mágicas, reunindo os seus livros, os queimaram diante de todos. Calculados os seus preços, achou-se  que montavam a cinqüenta mil denários” (At 19.19).

6. Crescimento e expansão do Evangelho. “Assim, a palavra do Senhor crescia e prevalecia poderosamente” (At 19.20).

7. Desestabilização do império do mal. “Por esse tempo, houve grande alvoroço acerca do Caminho. Pois um ourives, chamado Demétrio, que fazia, de prata, nichos de Diana e que dava muito lucro aos artífices, convocando-os juntamente com outros da mesma profissão, disse-lhes: Senhores, sabeis que deste ofício vem a nossa prosperidade e estais vendo e ouvindo que não só em Éfeso, mas em quase toda a Ásia, este Paulo tem persuadido e desencaminhado muita gente, afirmando não serem deuses os que são feitos por mãos humanas. Não somente há o perigo de a nossa profissão cair em descrédito, como também o de o próprio templo da grande deusa, Diana, ser estimado em nada, e ser mesmo destruída a majestade daquela que toda a Ásia e o mundo adoram. Ouvindo isto, encheram-se de furor e clamavam: Grande é a Diana dos efésios! Foi a cidade tomada de confusão, e todos, à uma, arremeteram para o teatro, arrebatando os macedônios Gaio e Aristarco, companheiros de Paulo. Querendo este apresentar-se ao povo, não lhe permitiram os discípulos” (At 23-30).
8. Éfeso, como igreja avivada e que vivia nas regiões celestes, não se podia dar ao luxo de ser politicamente correta.

II. A ORGANIZAÇÃO MAGISTERIAL DA IGREJA DE ÉFESO
Éfeso logo se estabeleceu como uma igreja ministerialmente completa, conforme podemos inferir desta passagem da carta que lhe enviou o apóstolo Paulo: “E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres” (Ef 4.11). 

Esta, por conseguinte, era a estrutura e a composição do corpo magisterial da Igreja de Éfeso:
1. Apóstolos
2. Profetas
3. Evangelistas
4. Pastores e doutores

III. OBJETIVOS DO MAGISTÉRIO ECLESIÁSTICO DE ÉFESO
Como se vê, o magistério eclesiástico de Éfeso era completo, pois visava a completude e a excelência dos santos que ali congregavam. Eis os objetivos principais do magistério da Igreja de Cristo.
1. Aperfeiçoamento dos crentes. “Com vistas ao aperfeiçoamento dos santos” (Ef 4.12.a).
2. Desempenho do serviço cristão. “para o desempenho do seu serviço” (Ef 4.12.b).
3. Edificação da Igreja. “para a edificação do corpo de Cristo” (Ef 4.12.c).
4. Unidade da fé. “até que todos cheguemos à unidade da fé” (Ef 4.13.a).
5. Conhecimento pleno de Cristo. “e do pleno conhecimento do Filho de Deus” (Ef 4.13b).
6. Perfeição cristã. “à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef. 4.13.c).
7. Maturidade doutrinária e teológica. “para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro” (Ef 4.13). 

IV. A EXCELÊNCIA BÍBLICO-TEOLÓGICA DA IGREJA DE ÉFESO
1. Instruída em todo o Conselho de Deus. “Portanto, eu vos protesto, no dia de hoje, que estou limpo do sangue de todos; porque jamais deixei de vos anunciar todo o desígnio de Deus” (At 20.26,27).
2. Fundamentada na doutrina dos profetas e apóstolos. “edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular” (Ef 2.20).
3. Assentada nos lugares celestiais. “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo” (Ef 1.3). 

V. ÉFESO, UMA IGREJA APOLOGÉTICA
Com base na carta que o Senhor Jesus enviou à Igreja de Éfeso, através de João, é-nos possível concluir fosse ela realmente uma comunidade apologética reconhecida por sua excelência. Isto porque, tinha capacidade bíblica, teológica e doutrinária para:
1. Não comungar com o mal. “e que não podes suportar homens maus” (Ap 2.2a)
2. Distinguir entre um apóstolo verdadeiro e um falso. “puseste à prova os que a si mesmos se declaram apóstolos e não são, e os achaste mentirosos” (Ap 2.2b).
3. Odiar as obras dos nicolaitas. “Tens, contudo, a teu favor que odeias as obras dos nicolaítas, as quais eu também odeio” (Ap 2.6). 

VI. AMEAÇAS CONTRA A IGREJA DE CRISTO
Além dos falsos apóstolos e dos nicolaitas, outras ameaças rondavam a Igreja de Éfeso. Todavia, como esta havia se levantado também como uma comunidade apologética de excelência, achava-se preparada para enfrentar quaisquer perigos. Vejamos, pois, alguns dos piores inimigos da Igreja de Cristo:
1. A teologia mundana, permissiva e venal de Balaão. “Tenho, todavia, contra ti algumas coisas, pois que tens aí os que sustentam a doutrina de Balaão, o qual ensinava a Balaque a armar ciladas diante dos fi lhos de Israel para comerem coisas sacrificadas aos ídolos e praticarem a prostituição” (Ap 2.14).
2. A teologia místico-profética de Jezabel. “Tenho, porém, contra ti o tolerares que essa mulher, Jezabel, que a si mesma se declara profetisa, não somente ensine, mas ainda seduza os meus servos a praticarem a prostituição e a comerem coisas sacrificadas aos ídolos” (Ap 2.20).
3. A teologia judaizante. “Eis farei que alguns dos que são da sinagoga de Satanás, desses que a si mesmos se declaram judeus e não são, mas mentem, eis que os farei vir e prostrar-se aos teus pés e conhecer que eu te amei” (Ap 3.9).
4. A teologia da prosperidade de Laodicéia. “Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca; pois dizes: Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu” (Ap 3.16,17). 

VII. OS PECADOS DE UM TEÓLOGO ORTODOXO E CONSERVADOR
Apesar de sua postura eclesiástica, sempre correta e impecável, o pastor da Igreja de Éfeso, alcunhado de anjo pelo próprio Senhor, já havia perdido a excelência do primeiro amor. E, agora, pelo que nos denota o texto bíblico, ainda que impecável na postura, mostra-se interiormente réprobo quanto ao amor que deveria dedicar tanto a Cristo como a sua Igreja. É interessante observar que, antes de repreendê-lo, Cristo elogia-o e enaltece-lhe as qualidades teológicas e ministeriais.
1. O elogio de Cristo. “Conheço as tuas obras, tanto o teu labor como a tua perseverança, e que não podes suportar homens maus, e que puseste à prova os que a si mesmos se declaram apóstolos e não são, e os achaste mentirosos; e tens perseverança, e suportaste provas por causa do meu nome, e não te deixaste esmorecer” (Ap 2.2,3).
2. Repreensão de Cristo. “Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor” (Ap 2.4).
3. Diagnóstico da vida espiritual e ministerial do pastor de Éfeso. Embora sua conduta fosse irrepreensível, espiritualmente o pastor de Éfeso havia involuído tanto em sua comunhão com o Senhor, como em relação às motivações ministeriais. Agora, já não passava de um acadêmico.

VIII. O ARREPENDIMENTO PARA UM TEÓLOGO
Espiritualmente, apesar de todas as suas excelências, o pastor da igreja de Éfeso, jazia caído. Para que ele se reerguesse, era mister que se arrependesse destes pecados:

1. Abandono do primeiro amor. “Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor” (Ap 2.4).
2. Abandono das primeiras obras. “volta à prática das primeiras obras” (Ap 2.5.b).
3. Amnésia espiritual. “Lembra-te, pois, de onde caíste” (Ap 2.5ª). Como pôde um teólogo tão singular e brilhante haver esquecido algo tão elementar e indispensável como o primeiro amor?
4. Menosprezo inconsciente da soberania de Cristo. Embora piedoso e impecável quanto à sua postura pessoal e eclesiástica, o pastor da Igreja de Éfeso, devido ao seu ativismo desamoroso, veio inconscientemente a menosprezar a soberania de Cristo. Por isso a primeira coisa que lhe disse o Senhor foi que Ele, o Cristo de Deus, era e é o cabeça e o soberano da Igreja: “Estas coisas diz aquele que conserva na mão direita as sete estrelas e que anda no meio dos sete candeeiros de ouro” (Ap 2.1). 

IX. O CONSELHO DE CRISTO PARA UM TEÓLOGO
Se até aquele momento, o pastor e teólogo de Éféso agastara-se a combater o mal e a preservar a ortodoxia doutrinária, agora terá de ouvir os conselhos que lhe dá o Senhor Jesus:

1. Arrependimento. “Arrepende-te” (Ap 2.5b). O arrependimento não é recomendado apenas para o pecador. O homem de Deus, por mais santo e piedoso, deve também arrepender-se de seus pecados e buscar aprofundar o seu relacionamento com o Senhor.
2. A prática das primeiras obras. “e volta à prática das primeiras obras” (Ap 2.5.c). Com uma folha de serviços substanciada de tantas realizações e trabalhos, que obras poderia o pastor e teólogo de Éfeso ter negligenciado?
a) A evangelização. Uma delas, sem dúvida alguma, é a evangelização pessoal e eclesiástica. Ainda que pastores, não podemos menosprezar esta recomendação de Paulo: “Tu, porém, sê sóbrio em todas as coisas, suporta as aflições, faze o trabalho de um evangelista, cumpre cabalmente o teu ministério” (2 Tm 4.5). Um teólogo, para ser digno desse título, tem de ganhar almas para Cristo, pois quem as arrebata das mãos de Satanás, sábio é (Pv 11.30). A evangelização tanto demonstra o fruto do Espírito em nossa vida, como a sabedoria que nos concede o Senhor.
b) A prática do primeiro amor. Paulo, ao discorrer sobre a beleza do amor cristão, considerou-o como o caminho sobremodo excelente: “E eu passo a mostrar-vos ainda um caminho sobremodo excelente” (2 Tm 2 Tm 12.31). Em seguida, o apóstolo põe-se a cantar as excelências do amor que Jesus nos esparge no coração por intermédio do Espírito Santo.

3. A ameaça de Cristo, o cabeça e o soberano da Igreja. Caso o pastor de Éfeso não viesse a arrepender-se de seus pecados, teria o seu castiçal removido da presença do Cristo: “Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras; e, se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas” (Ap 2.5).

CONCLUSÃO
Teólogos e mestres da Igreja de Cristo, confiou nos o Senhor uma tarefa pessoal, intransferível e urgente:

1. Preservar a santíssima fé que, um dia, entregou-nos o Senhor Jesus Cristo.
2. Aparelhar a Igreja, a fim de que esta erga-se também como uma comunidade proclamadora, profética e apologética.
3. Ensinar às novas gerações as excelências doutrinárias do Movimento Pentecostal.
4. Andar de amor em amor, lembrando-nos sempre de que sem amor, jamais seremos reconhecidos como cristãos.
5. Glorificar a Deus em nosso ministério, em nossa vida e na vida dos que nos cercam.

Fonte: Texto escrito para o Encontro de Reflexão Teológica do Movimento Pentecostal - Assembleia de Deus em Campinas - SP



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