segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Apologética pregar a verdade


                       Prega o Evangelho! (2 Tm 4.1-8)



Este capítulo contém parte das últimas palavras proferidas ou es­critas pelo apóstolo Paulo. São, certamente, as últimas que fo­ram preservadas. Foram escritas a semanas, talvez não mais do que poucos dias antes do seu martírio. De acordo com antiga tradição fidedigna, Paulo foi decapitado na Via Ápia. Por trinta anos ininterruptos trabalhara como apóstolo e evangelista itinerante. Fez, na verdade, o que ele mesmo escreve aqui: combateu o bom combate, completou a carreira e guardou a fé (v.7).  Agora ele aspira por seu prêmio, "a coroa da justiça", que já lhe estava reservada no céu (v.8). Estas palavras constituem-se no legado de Paulo à Igreja.   Elas estão impregnadas de uma atmosfera de gran­de solenidade. É impossível lê-las sem uma profunda emoção. A primeira parte do capítulo toma a forma de uma comovente in­cumbência. "Conjuro-te, perante Deus", assim começa.   O verbo diamartyromai tem conotações legais e pode significar "testificar sob juramento" numa corte de justiça, ou "adjurar" uma testemu­nha a assim proceder.   No Novo Testamento refere-se a qualquer "elocução solene e enfática".   A exortação de Paulo é endereçada, em primeiro lugar, a Timóteo, seu delegado apostólico e represen­tante em Éfeso.   É aplicada, também, a cada homem chamado a um ministério evangelístico ou pastoral, ou mesmo a todos os cristãos.

Há três aspectos da exortação a serem estudados, os quais são: sua natureza (o que Paulo de fato está comissionando a Timóteo), sua base (os argumentos sobre os quais Paulo baseia a sua exorta­ção) e uma ilustração pessoal dela, do exemplo do próprio Paulo em Roma.

1. A natureza da exortação (v.2)

Prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina.

Omitindo o versículo 1, por um momento, e passando ao versículo 2, encontramos a essência dessa exortação em três palavras: "prega a palavra". Observamos imediatamente que a mensagem que Timóteo deve comunicar é chamada de "palavra", algo que foi proferido por alguém. Mas é palavra, a palavra de Deus, que Deus mesmo proferiu. Paulo não precisa especificar melhor o que ele quer dizer, já que Timóteo saberá de imediato que se tra­ta do corpo de doutrina, que ouvira de Paulo, e que o mesmo Pau­lo lhe comissiona a passar adiante a outros. É idêntica ao "depósito" do capítulo 1, e neste quarto capítulo é equivalente à "sã doutrina" (v.3), "à verdade" (v.4) e "à fé"' (v.7). São as Escrituras do Velho Testamento, inspiradas por Deus e proveitosas, que Timóteo sabe desde a sua infância, junto com o ensino do após­tolo, que Timóteo "tem seguido", "aprendido" e de que tem si­do "inteirado" (3: 10-14). O mesmo comissionamento é dado à Igreja de cada época. Não temos nenhuma liberdade para in­ventar a nossa mensagem, mas somente para comunicar "a palavra" proferida por Deus e agora entregue à Igreja, em sagrada cus­tódia.

Timóteo deve "pregar" esta palavra; ele deve falar o que Deus falou. Sua responsabilidade não é somente ouvir essa palavra, crer nela e obedecê-la, nem somente guardá-la de toda falsidade; nem somente sofrer por ela e permanecer nela; mas, sim, pregá-la a outros. São as boas novas de salvação para os pecadores. Assim ele deve proclamá-la como um arauto em praça pública. Para fazê-la conhecida, deverá levantar a sua voz para todos, sem temor.

Paulo prossegue mostrando quatro sinais que deverão caracte­rizar a proclamação a ser feita por Timóteo.

a.  Uma proclamação urgente

O verbo ephistëmi, "instar", significa literalmente "assistir", e assim "estar de prontidão", "estar disponível". Aqui, contudo, pa­rece ter o sentido não somente de alerta e zelo mas de insistência e urgência. "Nunca perca o teu sentido de urgência" (CIN). Nu­ma forma lânguida e indiferente, certamente não se faz uma boa pregação. Toda boa pregação transmite um sentido de urgência e de importância do que está sendo pregado. O arauto cristão sa­be que está tratando de assunto de vida ou morte. Anuncia a si­tuação do pecador sob os olhos de Deus, e a ação salvadora de Deus, através da morte e ressurreição de Cristo, e o convida ao arrependimento e à fé. Como poderia tratar tais temas com fria indiferença? "Em tudo o que você fizer", escreveu RichardBaxter, "deixe transparecer a sua absoluta seriedade. . . Você não conse­guirá quebrantar o coração de ninguém com gracejos, nem contan­do histórias agradáveis ao ouvido, nem compondo um discurso pomposo. Ninguém abandonará as coisas de que mais gosta, me­diante uma solicitação sem profundidade feita por alguém que parece não falar com convicção, ou que pouco se incomode se a sua solicitação é aceita ou não".

Esta urgente pregação, Paulo acrescenta, deve continuar "a tem­po e fora de tempo". "Prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não." Tal regra de procedimento não deve ser tomada como desculpa para a falta de tato com as pessoas, o que muitas vezes tem caracterizado a evangelização, e que em decorrência tem da­do uma má reputação ao evangelho. Não nos é dada a liberdade de entrarmos sem cerimônia na vida privada de outras pessoas ou lhes pisarmos grosseiramente nos calos. Não, as ocasiões a que Paulo se refere como sendo "quer seja oportuno, quer não", apli­cam-se não tanto aos ouvintes como a quem fala. A BLH enfati­za isso: "pregue a mensagem e insista em anunciá-la, no tempo certo ou não". Assim é o verbo ephistëmi,em seu sentido alter­nativo, como é às vezes encontrado nos manuscritos. Assim, o que temos aqui não é uma base bíblica para a grosseria, mas sim um apelo bíblico contra a preguiça.

b. Uma proclamação contextual

O arauto que anuncia a Palavra deve corrigir, repreender e exortar. Isso sugere que há três diferentes maneiras de anunciar, pois que a Palavra de Deus é "útil" para uma variedade de ministérios, como Paulo já disse (3: 16). Ela fala a homens diferentes, em situações diferentes. O pregador deve lembrar-se disso e ser hábil no uso da Palavra. Ele deve usar "argumentos, repreensão e apelo", o que vem a ser quase uma classificação de três abordagens: a intelectual, a moral e a emocional. Porque muitas pessoas acham-se atormenta­das por dúvidas e precisam ser repreendidas; outras, ainda, são perseguidas pelas dúvidas e precisam ser encorajadas. A Palavra de Deus faz tudo isso e muito mais. É nosso dever aplicá-la contextualmente.

c. Uma proclamação paciente

Mesmo devendo instar (esperando obter das pessoas rápidas deci­sões em resposta à Palavra), devemos ter "toda a longanimidade na espera por essa resposta". Nunca devemos nos valer do uso de técnicas humanas de pressão ou tentar forçar uma "decisão". A nossa responsabilidade é ser fiel na pregação da Palavra; os resulta­dos da proclamação são de responsabilidade do Espírito Santo e, quanto a nós, só nos compete esperar pacientemente por sua obra. Também devemos ser pacientes em toda a nossa maneira de ser, porque "é necessário que o servo do Senhor não viva a contender, e, sim, deve ser brando para com todos, apto para instruir, pacien­te ; disciplinando com mansidão os que se opõem" (2: 24-25). Mes­mo sendo solene o nosso comissionamento, e urgente a nossa men­sagem, não se justifica uma conduta rude ou impaciente.

d. Uma proclamação inteligente

Não devemos só pregar a palavra, mas também ensiná-la, ou me­lhor, pregá-la "com toda a doutrina" (këryxon. . . en pasë..didachè). C. H. Dodd tornou clara a distinção entre kérygma edidachè, sendo a primeira a proclamação de Cristo aos descrentes, com um apelo ao arrependimento; e a segunda, a instrução ética aos conver­tidos. A distinção é prática e importante; contudo, como já suge­rido no comentário de 1: 1, ela pode se tornar rígida e estreita. Pe­lo menos este versículo nos mostra que o nosso kèrygma deve conter muito dedidachè. Se a nossa proclamação pretende antes de tudo convencer, repreender ou exortar, ela deve ser um ministério de doutrina.

O ministério pastoral cristão é essencialmente um ministério de ensino, e é por isso que se exige dos candidatos ortodoxia na fé e aptidão para o ensino (Tt 1: 9; 1 Tm 3: 2). Existe uma necessida­de crescente, especialmente em vista do contínuo processo de ur­banização e da elevação dos padrões de educação, dos ministros cristãos desenvolverem nas pululantes cidades do mundo um minis­tério de pregação com exposição bíblica sistemática, para "pregar a palavra. . . com toda a doutrina". Isto foi exatamente o que o próprio Paulo fez em Éfeso, como era do conhecimento de Timó­teo. Por cerca de três anos ele ensinou "publicamente e pelas ca­sas .. . todo o conselho de Deus" (At 20: 20-27; cf. 19: 8-10). Agora é a vez de Timóteo fazer o mesmo.

Tal é a instrução de Paulo a Timóteo. Ele deve pregar a Pala­vra anunciando a mensagem dada por Deus, mas deve fazê-lo com um sentido de urgência, deve aplicá-la ao contexto da situação pre­sente, deve ser paciente em seu modo de ser e inteligente na sua apresentação.

2. A base da exortação ( vs. 1, 3-8)

Conjuro-te, perante Deus e Cristo Jesus que há de julgar vivos e mortos, pela sua manifestação e pelo seu reino:. . .3Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres, segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos, 4e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas. 5Tu, porém, sê sóbrio em todas as cousas, suporta as aflições, faze o trabalho de evangelista, cum­pre cabalmente o teu ministério. 6Quanto a mim, estou sendo já oferecido por libação, e o tempo da minha partida é chegado. '''Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé. 8Já agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos quantos amam a sua vinda.

Já se tornou evidente, nos capítulos anteriores desta carta, que Timóteo era tímido por natureza e que os tempos em que ele vivia e trabalhava eram (na melhor das hipóteses) desfavoráveis. Ele deve ter estremecido ao ler a solene exortação do apóstolo para continuar pregando a palavra. A tentação de recuar diante de tal responsabilidade bem que poderia acontecer. Por isso, além de dar uma ordem, Paulo inclui incentivos. Pede que Timóteo olhe a três direções: primeiro para Jesus Cristo, o juiz e rei que retor­na; em segundo lugar, ao cenário contemporâneo; e, em terceiro, a ele, Paulo, o idoso prisioneiro à beira do martírio.

a. O Cristo que vem (v.1)

Paulo não está dando esta ordem em seu próprio nome ou sob sua própria autoridade, mas "perante Deus e Cristo Jesus", estando assim consciente da direção e aprovação divina. Talvez o mais forte de todos os incentivos à fidelidade seja saber que a ordem foi dada por Deus. Bastava dar a Timóteo a certeza de que ele é servo do Deus altíssimo e embaixador de Jesus Cristo, e de que o desafio que Paulo lhe faz é um desafio da parte de Deus, para que nada pudesse desviá-lo de sua tarefa.

A ênfase maior deste primeiro versículo, contudo, não recai tanto na presença de Deus, mas na volta de Cristo. É evidente que Paulo ainda crê na volta pessoal de Cristo. A respeito disso ele escrevera em suas cartas anteriores, especialmente nas destina­das à igreja em Tessalônica. Agora, mesmo sabendo que morrerá antes desse evento, ainda assim continua esperando por ele, no fi­nal do seu ministério. Paulo vive à luz desse acontecimento e des­creve os cristãos como aqueles que amam a vinda de Cristo (v.8). Ele está seguro de que Cristo voltará de forma visível (a palavra é epiphaneia nos vs. 1 e 8), e que, quando aparecer, "há de julgar os vivos e os mortos" e consumar o "seu reino" e poder.

Estas três verdades (o aparecimento, o juízo e o reino) devem ser para nós uma expectativa tão clara e certa quanto foi para Paulo e Timóteo. Elas não deixam de exercer uma poderosa in­fluência em nosso ministério, porque tanto os que pregam a pala­vra, como os que a ouvem, terão de dar contas a Cristo, quando ele aparecer.

b. O cenário prevalecente (vs. 3-5)

Notemos a palavra "pois" (gar), com que se inicia este parágrafo. Paulo fornece uma segunda base, sobre a qual apoia a sua exorta­ção. Há um outro evento futuro, antes da vinda de Cristo, a sa­ber, dias negros e difíceis. Embora pareça estar prevendo que a situação piorará, é evidente, a partir deste parágrafo e do que ele escreveu anteriormente, que para Timóteo tal tempo já começara. É a luz deste cenário prevalecente que Paulo dá outras instru­ções.

Como são esses tempos? Uma característica ele destaca, que as pessoas não podem suportar a verdade. Paulo expressa isso ne­gativa e positivamente, e declara isso duas vezes: "não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças" (v.3). "E se recusarão a dar ouvidos à ver­dade, entregando-se às fábulas" (v.4). Em outras palavras, tais pessoas não podem suportar a verdade e recusam-se a ouvi-la, bus­cando, então, mestres que adaptem suas fantasias especulativas, nas quais estão determinados a andar. Tudo isso tem a ver com os ouvidos daquelas pessoas, ouvidos que são mencionadosduas ve­zes. Elas sofrem de uma condição patológica peculiar, conhecida como "coceira nos ouvidos", ou "fome de novidades". Tal expressão é uma figura de linguagem para aquele tipo de curiosidade que está ávido por saber de casos picantes e interessantes. Além disso, esta coceira é abrandada pelas mensagens dos novos mestres. Na prática, o que tais pessoas fazem é fechar os ouvidos à verdade (cf. At 7: 57) e abri-los a qualquer mestre que alivie a sua coceira, coçando-a.

Notemos que o que rejeitam é a "sã doutrina" (v.3) ou "a ver­dade" (v.4), e o que preferem são "as suas próprias cobiças" (v.3) ou "fábulas" (v.4). Assim, substituem a revelação divina por suas fantasias. O critério pelo qual julgam os mestres não é (como de­veria ser) a Palavra de Deus, mas o seu próprio gosto subjetivo. Ainda mais, não ouvem primeiro para depois decidir se o que ou­viram é verdade; primeiro decidem o que querem ouvir e depois escolhem mestres que são obrigados a manter o padrão por eles exi­gido.

Como Timóteo deverá reagir a isto? Quase se pode adivinhar que uma tal situação desesperadora o faria silenciar. Se os homens não podem suportar a verdade e não querem ouvi-la, seria mais prudente para ele ficar quieto? Paulo, porém, chega a uma con­clusão diferente, porque pela terceira vez usa aqueles dois peque­nos monossílabos su de "TU, PORÉM" (cf. 3: 10-14). Ele repete sua ordem a Timóteo, ordena-lhe que seja diferente, não se dei­xando influenciar pela moda prevalecente.

Agora seguem quatro ordens bem distintas, que parecem ser deliberadamente concebidas para a situação em que Timóteo se encon­tra e para o tipo de pessoas a quem ele foi chamado a ministrar.

1 Por serem pessoas instáveis de mente e conduta, Timóteo deverá acima de tudo ser sempre "sóbrio". Literalmente nephö significa estar sóbrio e, figurativamente, "livre de qualquer forma de em­briagues mental e espiritual" sendo, pois, "bem equilibrado, autocontrolado". Quando homens e mulheres se intoxicam com heresias inebriantes e novidades reluzentes, os ministros devem conservar-se calmos e sensatos.

2 Mesmo que o povo não queira dar ouvidos ao seu bom ensino, Timóteo deve persistir em ensinar, predispondo-se a suportar afli­ções, por causa da verdade que ele se recusa a comprometer. Sem­pre que a fé bíblica se torna impopular, os ministros são altamente tentados a mudar aqueles elementos que promovem a maior ofensa.

3 Timóteo deve fazer o "trabalho de um evangelista', porque o povo é desgraçadamente ignorante a respeito do verdadeiro evan­gelho. Não está claro se a referência é feita a um ministério espe­cial, como se pretende nas duas únicas outras passagens do Novo Testamento onde a palavra ocorre (At 21; Ef 4: 11). A alternati­va é interpretá-la como alguém que prega o evangelho e testemu­nha de Cristo. De qualquer forma, é como se Paulo estivesse orde­nando a Timóteo: "Faze da pregação do evangelho a obra da tua vida". As boas novas não devem somente ser preservadas da distor­ção; elas devem ser propagadas.

4 Mesmo que as pessoas abandonem o ministério de Timóteo em favor de mestres que lhes cocem as ideias fantasiosas, Timóteo deve cumprir o seu ministério. O mesmo verbo é usado na pas­sagem onde Paulo e Barnabé cumpriram a obra de assistência em Jerusalém. Lucas escreve que eles voltaram de Jerusalém, cumpri­da a sua missão (At 12: 35). Assim também Timóteo deve perseverar, até que sua tarefa esteja cumprida.

Portanto, as quatro ordens de Paulo, ainda que diferentes nos detalhes, transmitem a mesma mensagem geral. Aqueles dias, em que era difícil conquistar ouvidos para o evangelho, não deveriam desencorajar Timóteo; nem detê-lo em seu ministério; nem induzi-lo a adaptar a sua mensagem ao gosto de seus ouvintes; nem, menos ainda, silenciá-lo de uma vez; mas antes deveriam estimu­lá-lo a pregar ainda mais. Conosco deve acontecer o mesmo. Quan­to mais difíceis os tempos e mais surdas as pessoas, tanto mais clara e persuasiva deve ser a nossa proclamação, ou, como diz Calvino, "quanto mais os homens se tornam determinados a despre­zar o ensino de Cristo, tanto mais Melosos devem ser os ministros de Deus em pugnar por ele e tanto mais ardorosos os seus esforços em preservá-lo incólume e, mais ainda, por sua diligência devem repelir os ataques de Satanás".

c. O velho apóstolo (vs. 6-8)

O terceiro motivo da exortação tem a ver com um outro evento no futuro, ou seja, o seu próprio martírio. O elo entre este pará­grafo e o versículo 5, que o precede, é bem claro. O argumento de Paulo poderia ser escrito da seguinte forma: "TU, PORÉM, Ti­móteo, tu deves cumprir o teu ministério porque eu já estou às portas da morte". É de vital importância que Timóteo continue e complete o seu ministério, uma vez que a tarefa de toda uma vida do apóstolo Paulo está chegando ao fim. Assim como Josué sucedeu a Moisés, Salomão sucedeu a Davi e Eliseu a Elias, assim também agora Timóteo deve suceder a Paulo.

O apóstolo usa duas vividas figuras de linguagem para descrever sua morte próxima, uma tirada da linguagem do sacrifício e outra (provavelmente) dos barcos. Em primeiro lugar, "estou sendo já oferecido por libação" ou "minha vida já está sendo colocada no altar". Ele compara a sua vida com um sacrifício e uma oferta. Tão perto ele crê estar do martírio, que fala como se o sacrifício já tivesse começado. E prossegue: "o tempo da minha partida é chegado". 'Tartida" (analysis) é um termo que se tornou usual para expressar "morte", mas daí não precisamos concluir, ne­cessariamente, que sua origem metafórica tenha sido completa­mente esquecida. Significa "desatar", "desamarrar", podendo tanto ser usado no sentido de "levantar acampamento" (preferi­do por Lock, por causa da expressão soldadesca, no versículo seguinte, "combati o bom combate"), como também no de "libertação" de algemas (mencionado por Simpson), ou "soltar um bote de suas amarras". A última é certamente a mais pitores­ca das três possibilidades. As duas imagens, pois, combinam-se razoavelmente, porque o fim desta vida (derramada como liba­ção) é o começo da outra (posta ao mar). A âncora já foi levanta­da, as amarras já estão soltas e o barco está prestes a fazer-se à ve­la, rumo a outra praia. Ainda, antes do início da grande aventura de sua nova viagem, Paulo se volta a contemplar o seu ministério de aproximadamente 30 anos. Ele o descreve (concretamente, sem jactância) com três expressões concisas.

Primeira: "combati o bom combate". As palavras poderiam igualmente ser traduzidas por "corri a grande corrida", porque agön denota qualquer contexto envolvendo esforço, seja uma corrida ou uma luta. Mas, já que a frase seguinte alude à corrida ou carreira que ele acabou, parece provável que Paulo esteja com­binando, novamente, as metáforas do soldado e do atleta (como em 2: 3-5) ou, pelo menos, as metáforas da luta romana e das cor­ridas.

Em seguida escreve: "completei a carreira". Alguns anos antes, falando aos anciãos da mesma igreja em Éfeso, a qual Timóteo estava agora presidindo, Paulo expressara o desejo de fazer exata­mente isto. "Em nada considero a minha vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus. . ." (At 20-24). Agora Paulo está em condições de dizer que assim o fez. "O que fora um propósito, era agora um retrospecto, comenta N. J. D. White. Ele podia usar o tempo perfeito do verbo nessas três expressões, tal como Jesus o fizera no cenáculo, porque o seu fim estava tão à vista.

Terceira: "guardei a fé". Isto bem pode significar "guardei a fé no meu Mestre". No contexto desta carta, contudo, que enfatiza tão fortemente a importância de guardar o depósito da verdade revelada, é mais provável que Paulo esteja afirmando sua fidelida­de neste sentido. "Guardei, com toda segurança, como bom guar­dião ou despenseiro, o tesouro do evangelho confiado aos meus cuidados."

Assim, a obra do apóstolo e, num âmbito menor, de cada prega­dor ou ensinador do evangelho, é descrita como enfrentar uma lu­ta, correr uma corrida, guardar um tesouro. Tais ações envolvem trabalho, sacrifício e até mesmo perigo. Em todas as três Paulo foi fiel até o fim.

Agora nada lhe resta, senão o prêmio, por ele chamado de "a coroa" (ou melhor, "a grinalda") da justiça, que lhe "está guarda­da" e que lhe será dada no dia da vitória, "naquele dia". Mesmo sem valor em si, feitas de folhas verdes, em vez de folhas de prata ou ouro, as grinaldas conquistadas pelos vencedores nos jogos gregos eram altamente apreciadas. "Muitos vilarejos daqueles dias", assim escreve o Rev. Moule, "derrubavam uma parte do seu muro branco a fim de que um seu filho, coroado com a coroa de louros ou do Olímpia, adentrasse por um portão ainda não usado antes." A coroa a que Paulo se refere como destinada a si ele a chama de "justiça" (dikaiosynê).Pelo seu linguajar carac­terístico, o sentido mais natural dessa palavra seria "justificação" mas, talvez, aqui ela tenha uma colocação um pouco diferente, estando em evidente contraste com a sentença que, a qualquer hora, um juiz humano lhe dará numa corte humana. O imperador Nero pode declará-lo culpado e condená-lo à morte, mas logo virá "uma magnífica revogação do veredicto de Nero", quando "o Senhor, reto juiz", o declarar justo.

A mesma justificação por Cristo é também para "todos quan­tos amam a sua vinda". Isto não é, de maneira alguma, uma dou­trina de justificação por boas obras. É desnecessário enfatizar a contínua convicção de Paulo, de que a salvação é um presente da graça de Deus, "não segundo as obras, mas conforme a sua deter­minação e graça" (1: 9). A coroa da justiça é concedida a "todos quantos amam a sua vinda", não porque esta seja uma atitude meritória a ser adotada, mas por ser uma firme evidência da justificação. O descrente, não justificado, teme a volta de Cristo (caso creia ou simplesmente pense nela). Não estando preparado para ela, temerá de vergonha perante Cristo, na sua vinda. O crente, por outro lado, tendo sido justificado, aguarda a volta de Cristo e se afeiçoou a ela. Achando-se preparado, o cristão terá confiança quando Cristo aparecer (1 Jo 2: 28). Somente aqueles que aden­traram pela fé nos benefícios da primeira vinda de Cristo aguar­dam ansiosamente a sua segunda vinda (cf. Hb 9:28).

Este é, pois, Paulo, o velho, como ele mesmo se chamou, um ou dois anos antes, em sua carta aFilemon (v.9). Paulo comba­teu o bom combate, completou a carreira e guardou a fé. O seu sangue está a ponto de ser derramado, o seu pequeno barco está a ponto de fazer-se à vela. Ele está esperando ansiosamente por sua coroa. Estes fatos devem ser para Timóteo um terceiro estí­mulo à fidelidade.

Nosso Deus é o Deus da História. Deus está executando o seu propósito ano após ano. Um obreiro pode cair, mas a obra de Deus continua. A tocha do evangelho é transmitida de geração a gera­ção. Ao morrerem líderes da geração anterior, é da maior urgên­cia que se levantem aqueles da geração seguinte e com coragem to­mem os seus lugares. O coração de Timóteo deve ter sido profun­damente tocado por esta exortação do velho guerreiro Paulo, que o levara a Cristo.

Quem levou o leitor a Cristo?   Tal pessoa está envelhecendo?

Quem me levou a Cristo está agora aposentado (mas ainda ativo!). Não podemos descansar para sempre na liderança da geração que nos precedeu. Chegará o dia em que deveremos substituí-los e, nós mesmos, tomaremos a liderança. Tal dia acabava de chegar pa­ra Timóteo; a seu tempo chegará para todos nós.

Assim, pois, em vista de que Cristo vem para julgar, e de que o mundo tem aversão pelo evangelho, e de que a morte do apósto­lo encarcerado é iminente, a última exortação a Timóteo conti­nha uma nota de solene urgência: "Prega a Palavra!"
 Bibliografia John R. W. Stott

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