quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Estudos e comentario de atos dos Apostolos (1)


                                 ESTUDOS E COMENTARIO DE 

                              ATOS DOS APOSTOLOS
                                                    Artigo Mauricio Berwald



Certamente haveremos de nos convencer de que, à semelhança daqueles dias, o Espírito Santo vem agindo na Igreja e através da Igreja, levando-a a ser o sal de um século insípido e a luz de um mundo em trevas. Mas não espere encontrar uma igreja sem problemas, conforme adverte-nos o pastor inglês John Stott: “A leitura de Atos não deve levar-nos a uma idealização da Igreja Primitiva, como se ela não possuísse nenhum defeito. Como veremos adiante, ela tinha muitos”.
Sim, não encontraremos uma igreja perfeita, mas uma igreja poderosa e militante que espalha o Evangelho de Cristo sem impedimento algum.

 AUTORIA, DATA E TEMA

Em seu Evangelho, Lucas fez um relato fidedigno e metódico pondo “em ordem a narração dos fatos”, diz ele, “que entre nós se cumpriram, segundo nos transmitiram os mesmos que os presenciaram desde o princípio” (Lc 1.1,2). Já em Atos dos Apóstolos, pôs-se ele a narrar a expansão da Igreja de Cristo. Neste livro, Lucas atua também como o personagem que, de forma modesta, oculta-se na humildade do pronome da primeira pessoa do plural (At 20.6,13,15; 21.16; 27.8).
Conheçamos, pois, mais alguns detalhes dos Atos dos Apóstolos que devem ser conhecidos ainda, segundo F.B. Meyer, como “os Atos do Espírito do Cristo que ascendeu ao céu”.
 Autoria. Não possuímos muitas informações acerca do autor de Atos dos Apóstolos. Sabemos apenas tratar-se de um homem excepcional, culto e possuidor de um estilo literário de impressionante grandeza. Haja vista o prólogo de seu evangelho escrito num grego que se aproxima do clássico (Lc 1.1-4).

Lucas também era médico (Cl 4.14). E mui amado por todos.

Pelo que depreendemos de sua obra, veio ele a converter-se depois da ascensão do Senhor Jesus. A partir da segunda viagem missionária de Paulo, encontramo-lo a participar ativamente da evangelização dos gentios (At 16.10).
 Data de composição. Lucas concluiu os Atos dos Apóstolos entre os anos 61-63. Portanto, antes da execução de Paulo e bem antes da destruição de Jerusalém pelos romanos. Historiador consciencioso que era, jamais deixaria de mencionar ambos os fatos, houvesse ele escrito o livro após o ano 70. Acerca da historiografia lucana, manifesta-se A. N. Sherwin-White, emérito professor de história da Universidade de Oxford: “Para o autor de Atos, a confirmação da historicidade dos fatos é fundamental”.

 Tema. Podemos resumir assim o tema central dos Atos dos Apóstolos: A expansão triunfal do Evangelho de Cristo através da Igreja no poder do Espírito Santo.

 O CONTEÚDO DE ATOS DOS APÓSTOLOS

Assim podemos dividir o conteúdo de Atos dos Apóstolos: Eventos Pré-pentecostais (At 1); Evento Pentecostal (At 2); A expansão do Evangelho em Jerusalém (At 3-7); A expansão do Evangelho na Judeia e Samaria (At 8-12); A expansão do Evangelho entre os gentios (At 13-28). As divisões de Atos dos Apóstolos acompanham a ordem de Jesus em Atos 1.8.
 Eventos pré-pentecostais. Dois foram os principais eventos que precederam a descida do Espírito Santo no Dia de Pentecostes: a ascensão de Cristo e a escolha de Matias como ocupante do posto desprezado por Judas Iscariotes.
a) A ascensão de Cristo. A subida do Cristo ressurreto e glorioso ao céu, como veremos na próxima lição, não foi um artifício mitológico criado por Lucas, mas um fato histórico comprovado e testemunhado por centenas de pessoas (At 1.15; 1 Co 15.6).
b) A eleição de Matias. A escolha do substituto do Iscariotes tem de ser encarada como um capítulo importantíssimo da História da Igreja Cristã. Além do mais, foi o próprio Espírito Santo quem constrangeu a Pedro a presidir a reunião que culminou com a designação de Matias. A Igreja não poderia ser inaugurada com o colégio apostólico incompleto (At 1.15-20).
 Evento Pentecostal. Estando o Cristo já à destra do Pai e a vacância de Judas preenchida por Matias, só faltava mesmo a efusão do Espírito Santo sobre os discípulos, para que a Igreja fosse inaugurada como a agência por excelência do Reino de Deus. O fato está registrado em Atos capítulo dois. Na terceira lição, estaremos a discorrer com mais vagar sobre o evento.

 Eventos missionários. Lucas narra, com precisão, seis eventos missionários que mostram como a Igreja de Cristo expande-se de Jerusalém aos confins da terra: a expansão em Jerusalém, a expansão na Judeia e Samaria e a expansão entre os gentios, compreendendo as quatro viagens missionárias de Paulo.

a) A expansão em Jerusalém. Nenhum líder judeu poderia imaginar que, logo após a morte do Senhor Jesus, a Igreja Cristã, inaugurada no Pentecostes, esparramar-se-ia tão celeremente por toda Jerusalém. No Sermão do Pentecostes, quase três mil almas agregaram-se aos fiéis (At 2.41). Mais adiante, o número já sobe para quase cinco mil (At 4.4). Daí em diante, multiplicou-se tanto o número de conversos que até mesmo não poucos sacerdotes obedeciam a fé (At 6.7).

b) A expansão da Igreja na Judeia e Samaria. A morte de Estêvão foi apenas o início de uma perseguição que culminaria com a diáspora da igreja hebreia. Os irmãos, espalhados que foram pela arbitrariedade das autoridades judaicas, iam semeando a Palavra de Deus por toda a Judeia até chegar a desprezada Samaria (At 8.1-25). Nessa fase, destaca-se como evangelista o que fora escolhido como diácono: Filipe (At 8.5).
c) A expansão da Igreja entre os gentios. Se na parte inicial de Atos, a figura proeminente é Pedro, na segunda parte destacar-se-á Saulo de Tarso como o grande campeão de Cristo que, em três viagens missionárias, levou o Evangelho ao extremo ocidental do mundo então conhecido sem impedimento algum (At 13-28). 

 O PROPÓSITO DE ATOS DOS APÓSTOLOS

O livro de Atos dos Apóstolos foi escrito com o propósito de narrar e justificar a expansão universal da Igreja de Cristo no poder do Espírito Santo. É o seu intento também estimular os crentes de todas as gerações a prosseguir na universalização do Reino de Deus até a volta de Cristo.
 Narrar a expansão da Igreja. Como a Igreja de Cristo, inaugurada pelo Espírito Santo em Jerusalém, veio a tornar-se na universal e invisível assembléia dos santos? Foi justamente para responder a esta pergunta que Lucas escreveu os Atos dos Apóstolos. Metódica e sistematicamente, mostra ele como a Igreja transcendeu as fronteiras da Judeia para universalizar-se nos confins da terra (At 1.1-15).
 A justificar os Atos dos Apóstolos. De maneira sutil, porém bastante evidente, Lucas destaca o mandamento do Cristo que justifica não apenas a expansão da Igreja como a sua universalização: “Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra” (At 1.8). Evangelizar e fazer missões é a nossa obrigação.
 Estimular aos crentes. Ao encerrar os Atos dos Apóstolos, deixa Lucas bem patente a todos nós que aqueles atos não foram encerrados com a prisão de Paulo em Roma, mas acham-se abertos e livres para que evangelizemos e façamos missões até a volta de Jesus sem impedimento algum.
Atos dos Apóstolos.“Os capítulos iniciais do Livro de Atos definem os alicerces do explosivo crescimento da jovem igreja. Por cerca de quarenta dias os discípulos foram ensinados, por Jesus, sobre ‘o Reino de Deus’ e sua responsabilidade de difundir a mensagem de Jesus ‘até aos confins da terra’ (1.1-8). A ascensão visível de Cristo ao céu foi seguida por um breve período de espera, durante o qual os discípulos escolheram um fiel seguidor de Jesus para assumir o lugar de Judas Iscariotes (1.9-26). Esta espera terminou no dia de Pentecostes.
[Os] primeiros capítulos de Atos apresentam os temas que percorrem todas as epístolas do Novo Testamento, e são vitais para nós hoje. O primeiro tema é o Espírito Santo. Sua vinda inaugura a igreja [...]. O segundo tema é a evangelização. Os primeiros cristãos são levados a proclamarem o Senhor [...]. O terceiro motivo é a comunhão. Os membros da jovem igreja são unidos por comprometimento compartilhado com Jesus. Eles adoram, estudam, repartem e oram juntos, em unidade que inspira profundo carinho de uns pelos outros. Embora devamos encarar o Livro de Atos como documento descritivo que retrata o que aconteceu no século I, em lugar de encará-lo como um documento prescritivo que nos instrui sobre como devemos viver hoje, estes três temas nos lembram de como dependência do Espírito, paixão pela evangelização e comprometimento com a comunhão são vitais para qualquer pessoa que procure seguir a Jesus Cristo em nossa época”.

(NOTAS RICHARDS, L. O. Comentário Histórico-Cultural do Novo Testamento. 1.ed. RJ: CPAD, 2007, pp.251-2) 

A Eclesiologia em Lucas.“No pensamento de Lucas, a Igreja relaciona-se com algumas coisas antigas e novas. Ela está ligada às coisas antigas porque compartilha as promessas feitas e entrega essa mensagem ao mundo. Ela está ligada às coisas novas porque é uma estrutura totalmente nova por meio da qual, agora, Deus opera. Os apóstolos proclamavam nas sinagogas que Jesus é o cumprimento da Lei do Antigo Testamento, portanto, todo judeu que respondia as promessas devia vir a Jesus. A argumentação dos apóstolos era que o fim natural do judaísmo encontrava-se em Jesus. No início de Atos dos Apóstolos, os apóstolos não parecem considerar que foram chamados a se separar de Israel. Eles iam ao Templo e se reuniam lá (At 3.1-10; 4.1,2; 5.12). A prática deles era sensível em relação às preocupações judaicas (15.1-35; 21.17-26). [...] Até mesmo quando Paulo deixou os judeus para ir aos gentios, ele ainda ia à sinagoga, ou ao Templo, das cidades que viajava (13.46 — 14.1; 18.6 com 21.26) [...] Os judeus que ouviam Paulo ficavam informados que eles, para seguir até o fim seu compromisso com Deus, tinham de abraçar a mensagem da promessa inaugurada e se tornar membros da nova comunidade. Entretanto, os eventos forçaram a Igreja a se separar do Judaísmo, por causa da rejeição judaica. Como resultado disso, a Igreja emergiu como uma comunidade independente da sinagoga.

Lucas via essa comunidade que surgia como algo novo. Por isso, em At 11.15, Pedro, ao se referir aos eventos de 2.1-4, usa a expressão ‘ao princípio’. Agora, nos termos lucanos, ela é o início da realização da promessa, conforme as declarações de Pedro relacionadas com a primeira distribuição do Espírito (At 2.14-36) [...]. Assim, o surgimento da Igreja teve sua origem na vinda do Espírito Santo. Atos 11.15-18 torna a concessão do Espírito o marco inicial dessa nova era e desse novo grupo de fiéis. Lucas explica como esse grupo torna-se distinto do judaísmo e, mesmo assim, tem o direito de proclamar as promessas que costumam pertencer exclusivamente às sinagogas. Deus está presente nessa nova comunidade. Em Atos 11, o ponto adicional a respeito desse novo grupo é que Deus incluiu os gentios nesse círculo de bênçãos com sua intervenção direta (vv.11-18). Em Atos 2, os eventos da fundação da igreja fazem paralelo com os eventos da casa de Cornélio, registrados em Atos 10.1 – 11.18, mostrando, sem deixar a menor sombra de dúvida, que Deus agiu para incluir os gentios”.

(NOTAS ZUCK, R. et al. Teologia do Novo Testamento. 1.ed. RJ: CPAD, 2008, pp.156-57)

MAIS NOTAS DOS ASSUNTOS JA TRATADOS ANTERIORMENTE.
Introdução ao estudo sobre a ação do Espírito Santo na Igreja e através da Igreja conforme a narrativa lucana
Lucas não se limitou a escrever os Atos dos Apóstolos. Fiel companheiro de Paulo, participou ele de muitos daqueles atos que os apóstolos prodigalizaram sob a unção do Espírito Santo. Cruzando fronteiras, singrando mares e transculturando-se até mesmo entre os bárbaros e incultos, esmerou-se como um dos maiores escritores de todos os tempos.

Em Atos dos Apóstolos, Lucas vai localizando eventos que rapidamente universalizam-se na conversão de pessoas e famílias das mais distintas nacionalidades. Como ficar indiferente àqueles acontecimentos tão únicos que se deram em Jerusalém, que se efetivaram em Samaria e imortalizaram-se em Antioquia? Da ascensão de Cristo no Monte das Oliveiras até a prisão de Paulo em Roma, tais fatos mostram o irresistível poder do Espírito Santo na vida da Igreja que, tendo como nascedouro Israel, reclamava agora, como herança, todas as nações da terra.

Transcendendo a sombra de um império localizado e passageiro, Lucas visualiza o ideal de um reino universal e eterno que se concretiza na proclamação do Evangelho de Cristo. Somente um historiador com a sua magnitude gizaria um domínio que o Império Romano não seria capaz de resistir. Um domínio, aliás, construído não apenas de palavras, mas erguido sobre atos miraculados pelo Espírito Santo.

O que é o livro de Atos dos Apóstolos

Lucas não escreveu livros; redigiu dois tratados. Judiciosa e imparmente, redigiu-os. O próprio autor assim classifica suas obras: “Escrevi o primeiro tratado” (At 1.1). Temos diante de nós, por conseguinte, um dos maiores escritores de todos os tempos. Além de divinamente inspirado, sabia Lucas como trabalhar a palavra de maneira a realçar-lhe o belo. Diria Olavo Bilaque que o evangelista era um ourives de raro pendor.

São mui raros os historiadores que se destacam pela sublimidade do estilo, pela seleção dos vocábulos e pela arquitetura da frase. A maioria supõe que, ater-se aos fatos, é o suficiente para agradar ao leitor. Na língua portuguesa, temos um exemplo que merece ser citado quer pela exatidão de sua historiografia, quer pela formosura de sua prosa. Refiro-me a Oliveira Martins (1845-1994). A sua História de Portugal é uma obra que, além de bem pesquisada, teve o seu texto cinzelado com esmero e apuro. Apesar de seu engenho e arte, Martins não logrou superar o médico amado.

No evangelho, Lucas deixa bem claro a Teófilo que o seu propósito não é compor a biografia de Jesus, mas aprofundar-se na vida, ministério e paixão daquele que, nascido verdadeiro homem, era e é verdadeiro Deus. Pesquisando exaustivamente os fatos, cotejando documentos e entrevistando testemunhas oculares, logrou reconstituir com singular precisão as palavras e atos do Nazareno desde Belém de Judá até ao Calvário. Esse foi o seu primeiro tratado.

Mas, rigorosamente, o que é um tratado? É um estudo sistemático e metódico acerca de um personagem, de uma ciência ou de um evento histórico. A palavra grega traduzida por tratado é mui significativa. Logos é um estudo formal sobre determinado assunto, cuja natureza demanda rigorosa organização, a fim de conformar-se às exigências da comunidade acadêmica.

Pode o livro de Atos ser considerado um trabalho rigorosamente acadêmico? Na pena do Dr. Lucas, sim. Oferece-nos ele mais do que uma história; presenteia-nos com uma historiografia precisa e claríssima do Filho de Deus. Nenhuma academia que se preza haveria de reprovar-lhe os tratados: o terceiro evangelho e os Atos dos Apóstolos.

Aceito universalmente pela comunidade cristã, os Atos são, por conseguinte, um livro histórico, teológico, apologético e missiológico. 
Atos: histórico, teológico, apologético e missiológico

O livro de Atos dos Apóstolos é uma obra histórica, teológica, apologética e missiológica. Se não, vejamos.

1) Histórico - O objetivo de Lucas, em Atos dos Apóstolos, é historiar os eventos que se sucederam na Igreja e através da Igreja, destacando sempre a Igreja de Cristo como a agência por excelência do Reino de Deus. Seu relato vai da ascensão de Jesus, no Monte das Oliveiras, até à prisão domiciliar de Paulo, em Roma. O autor revela, de maneira bem clara o seu objetivo:

“Escrevi o primeiro livro, ó Teófilo, relatando todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar até ao dia em que, depois de haver dado mandamentos por intermédio do Espírito Santo aos apóstolos que escolhera, foi elevado às alturas. A estes também, depois de ter padecido, se apresentou vivo, com muitas provas incontestáveis, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando das coisas concernentes ao reino de Deus. E, comendo com eles, determinou-lhes que não se ausentassem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Pai, a qual, disse ele, de mim ouvistes. Porque João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias. Então, os que estavam reunidos lhe perguntaram: Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel? Respondeu-lhes: Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou pela sua exclusiva autoridade; mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra” (At 1.1-8).

A historiografia lucana é científica. Fruto de ampla pesquisa, revela-se metódica e expõe-se sistemática. Ele jamais se contentou com fontes que não fossem primárias. Além de escrever a história da Igreja Primitiva, desta mesma história participou. Ele oculta-se na majestade da segunda pessoa do plural, para revelar a singularidade da pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo na vida de seus apóstolos e evangelistas.

2) Teológico - Ao fazer história, Lucas dá-se a conhecer como grande e sublimado teólogo. A teologia vai aparecendo em sua obra de forma progressiva, observando sempre o ritmo de sua narrativa. Assim, realça ele o Reino de Deus através da Igreja no poder do Espírito Santo. Não era a sua intenção elaborar um tratado teológico. Mas, ao narrar as ações dos apóstolos do Cristo, fez-se teólogo. Como dissociar a História Sagrada da teologia bíblica e cristocêntrica?

3) Apologético - Os Atos dos Apóstolos são também um livro apologético. Em primeiro lugar, os discípulos de Jesus defenderam as verdades cristãs diante das autoridades judaicas que, de forma blasfema e arbitrária, tudo fizeram por matar a Igreja em seu nascedouro. Tendo em vista tal ameaça, o Espírito Santo instrumentalizou a Pedro e a João como os dois primeiros apologetas da Igreja (At 4.1-30). Em seguida, levanta o diácono Estevão que apresenta, diante dos mesmos potentados, uma brilhantíssima apologia de Nosso Senhor Jesus Cristo como o Cristo profetizado no Antigo Testamento (At 7).

Doutor dos gentios, o apóstolo Paulo faz seguidas defesas do Cristianismo diante dos gentios, realçando duas grandes doutrinas: o monoteísmo e a soteriologia cristológica. Haja vista o seu discurso no Areópago diante dos filósofos estóicos e epicureus (At 17.1-30). Esse pronunciamento pode ser considerado o mais perfeito enunciado do verdadeiro conhecimento de Deus.

4) Missiológico - Apesar de missionário, os Atos dos Apóstolos não são um tratado missiológico. Lucas, porém, ao narrar os primeiros empreendimentos evangelizadores da Igreja Cristã, deixa bem patente que aquela geração de crentes tinha em si, já bastante cristalizada, uma teologia de missões. Evangelizar, para eles, não era apenas uma demanda teológica, mas uma questão de obediência ao Senhor ressurreto e assunto.

Os cristãos primitivos não faziam distinção entre missões nacionais e estrangeiras. Tendo diante de si a Grande Comissão que nos confiou o Cristo, puseram-se a proclamar ousadamente o Evangelho em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria. Ignorando fronteiras, quer étnicas, quer culturais, chegaram aos extremos do mundo até então geografado.

Para os cristãos de Atos dos Apóstolos, a missiologia não se acomodava no âmbito da teoria, mas dinamizava-se numa prática que levava a Igreja a forçar as portas do inferno através da proclamação do Evangelho de Cristo.

No próximo artigo, falaremos um pouco sobre a vida e obra do autor de Atos: o médico amado, historiador e missionário Lucas.
  

Lucas, o médico amado e grande historiador da Igreja Primitiva

Não temos muitas informações acerca do autor de Atos dos Apóstolos. Sabemos apenas tratar-se de um homem singularmente culto e possuidor de um estilo literário de impressionante grandeza. Lendo-lhe o prólogo do terceiro evangelho, apreendemos de imediato a imparidade de seu engenho e a peregrinação de sua arte (Lc 1.1-4).

Pelo que depreendemos de suas obras, veio ele a converter-se depois da ascensão do Senhor Jesus. Mas, a partir da segunda viagem missionária de Paulo, ei-lo a participar ativamente da evangelização das gentes, pois destas era filho.

1) Um autor gentio a serviço do Rei dos judeus - Um artista da palavra que realçou a precisão. Basta ler a Epístola de Paulo aos Colossenses para se concluir ter sido Lucas um gentio de ascendência cultural grega (Cl 4.1-14). É possível fosse ele também cidadão romano.

Por conseguinte, Lucas é o único autor não hebreu das Sagradas Escrituras. Através de sua pena, sempre bela e terça, o Evangelho universaliza-se naquelas comunidades gregas, romanas e bárbaras que iam, pouco a pouco, sucumbindo à mensagem poderosa da cruz enunciada pelo apóstolo Paulo de Antioquia até Roma.

2) Um historiador que teologizou o avanço da Igreja -
 Quem não se encanta com os relatos de Heródoto? Filho do quinto século antes de Cristo, é ele alcunhado de o Pai da História. Pois fugindo ao mito e evitando os redimensionamentos de Homero e Hesíodo, buscou mostrar os gregos como estes realmente eram: seres humanos sujeitos às fraquezas, mas capazes de inacreditáveis façanhas. Apesar de todo o seu esforço, Heródoto não conseguiu evitar as hipérboles. Lucas, porém, lograria o que não alcançara o seu ilustre compatriota. Nos Atos dos Apóstolos, mostra o sobrenatural da operação do Espírito Santo na vida de homens naturalmente frágeis e limitados.

Fez Lucas, em seu evangelho, um relato fidedigno e metódico de “todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar até ao dia em que, depois de haver dado mandamentos por intermédio do Espírito Santo aos apóstolos que escolhera, foi elevado às alturas” (At 1.1-2). Já em Atos dos Apóstolos, pôs-se ele a narrar a expansão da Igreja de Cristo. Neste livro, a propósito, Lucas  participa não somente como autor, mas também como o personagem que, de forma modesta, oculta-se nas famosas seções do pronome da 1ª pessoa do plural (At 20.6, 8, 13,15; 21.16; 27.8 etc).

3) Um artista da palavra - 
Há historiadores que se contentam em reconstituir o passado, registrar o presente e futurar o porvir. Todavia, não se preocupam com o estilo. Poucos são os que, à semelhança de Alexandre Herculano, Oliveira Martins e Winston Churchill, fazem da historiografia uma obra de arte. Lucas pertencia a este seleto grupo. Tanto em seu evangelho como em Atos, vai ele não somente trabalhando, como também lapidando o texto. E de tal forma o lapida, que temos a impressão de estar diante de uma pedra de peregrino valor.

Em sua pena, o koinê ganha os mesmos contornos que a linguagem clássica cunhou na poesia de Homero, no teatro de Sófocles, na oratória de Demóstenes e nos diálogos de Platão. Lucas é um escritor por excelência. Mas não permitia que a beleza do texto empanasse a verdade dos fatos que, desde a ascensão de Nosso Senhor, se iam sucedendo na Igreja e através da Igreja, até a prisão de Paulo.

4) Um médico que compreendeu a verdadeira dimensão da fé -
 Lucas é o maior exemplo de que a verdadeira ciência pode conviver harmonicamente com a religião do Único e Verdadeiro Deus. Médico formado com todos os rigores acadêmicos da época, ele sabia como viver em harmonia com a natureza que nos deixou o Criador e não tinha dificuldade alguma em conviver com o sobrenatural e com os milagres que o Senhor opera no âmbito de sua obra. Se por um lado, deleitava-se em curar os enfermos que encontrava durante as incursões missionárias de que tomou parte; por outro, não lhe causava nenhuma estranheza quando Paulo impunha as mãos sobre os doentes e os curava das mais estranhas e malignas moléstias.

Nesse tempo, a medicina era bastante desenvolvida entre os gregos e os romanos. A escritora canadense Taylor Caldwell ao romancear a vida de Lucas, revela que os médicos formados nas academias gregas achavam-se habilitados, inclusive, a fazer operações plásticas. Aliás, no tempo dos macabeus, não eram poucos os israelitas que, na ânsia de se helenizarem, recorriam a procedimentos que lhes disfarçavam o sinal da circuncisão.

O ambiente que Lucas frequentou, antes de converter-se a Cristo, era academicamente sofisticado. A ciência ali era levada a sério. Sem eles, não teriam nossos cientistas alcançando tanto êxito. Entre os gigantes daquela época, achava-se o evangelista Lucas.

Lucas não era apenas médico. Conheciam-no todos como o médico amado (Cl 4.14). Seguindo certamente as recomendações de Hipócrates, o pai da medicina, tudo fazia para que os seus pacientes vissem-no também como um amigo. Num consultório do Rio de Janeiro, tive a impressão de que o Dr. Lucas lá estivesse. Pois um quadro trazia uma confissão simples, mas profundamente filosófica e ética: “Fui procurar um médico; achei um amigo. Eis aí o princípio de minha cura”. Como necessitamos de médicos que, à semelhança de Lucas, se dediquem aos doentes sem fazer das doenças uma fonte de renda.

Quando de meu transplante hepático, encontrei vários médicos e enfermeiros que procuravam, em suas limitações, imitar o médico amado. No Hospital Geral de Bonsucesso, no Rio de Janeiro, havia muitos discípulos de Lucas. E lá também estava o Médico que não somente nos emprestava a sua amizade, mas que nos garante a vida: Jesus Cristo, a quem Lucas anunciava quando exercia amorosamente a medicina.

Deveria Lucas, por conseguinte, ser o patrono não somente dos médicos, mas de todos os que se aplicam à ciência. Na prática, ele demonstrou que o cientista realmente sábio não encontra fronteiras entre a ciência e a religião; sua fronteira é o amor que consagra àquele que é a fonte de todo conhecimento e sabedoria.

5) Um missionário que não se limitou a escrever a história - 
Lucas é conhecido como médico e evangelista. No entanto, era ele também um missionário. Integrante da equipe de Paulo, andejou as vias romanas, singrou mares, enfrentou naufrágios. E em Roma prestou a necessária assistência ao apóstolo, a fim de que este não se visse de todo desamparado. Num momento de consolo, o doutor dos gentios mostra o quanto Lucas lhe é leal: “Somente Lucas está comigo” (2 Tm 4.11).

Não seria exagero se Lucas recebesse de igual modo o título de apóstolo, pois como apóstolo acompanhou Paulo em três de suas quatro viagens missionárias. Como apóstolo, escondeu-se ele na majestade da segunda pessoa do plural, a fim de singularizar o Senhor Jesus Cristo.
 
Onde e quando foi escrito Atos dos Apóstolos

As evidências internas de Atos dos Apóstolos levam-nos a concluir tenha Lucas escrito o livro por volta do ano 61. Paulo ainda vivia quando o autor encerrou a obra e, logo em seguida, remeteu-a ao excelentíssimo Teófilo. Somos obrigados a supor que ele encontrava-se em Roma assistindo o apóstolo em sua prisão domiciliar.

Mas, antes de entrarmos a fazer tais considerações, vejamos o tema do livro de Atos.

1) Tema - Podemos resumir assim o tema central dos Atos dos Apóstolos: A expansão triunfal do Evangelho de Cristo através da Igreja no poder do Espírito Santo.

Por intermédio das atuações evangelizadoras dos apóstolos, aprendemos como a fazer missões nacionais e transculturais. Em sua narrativa missio-teológica, Lucas conscientiza-nos a  prosseguir a evangelizar povos e nações até aos confins da terra sem impedimento algum.

2) De Roma para o mundo - Capital do Império, avultava-se Roma como a mais luxuriante das cidades. Nessa época, quem imperava era o perverso, sanguinário e bestificado Nero. Um deus sem divindade era esse imperador. Embora tratado de senhor por todos os seus súditos, de seus vícios fazia-se escravo.

Deuses e homens confundiam-se pelas ruas, praças e demais logradouros de Roma. Aqui estavam os mais ilustres poetas, os mais requisitados oradores, os mais destacados militares e os cientistas que, herdeiros dos gregos, versavam sobre as últimas descobertas. Em uníssono, todos não se ocupavam a não ser de ouvir as novidades que chegavam das províncias com aqueles barcos e navios que aportavam nas sempre belas costas italianas.
Entre tanta gente ilustre e assinalada, achava-se o Dr. Lucas. Nalgum lugar bem periférico de Roma, quem sabe, redigia os atos daqueles apóstolos que, de Jerusalém e de Antioquia, navegaram por ondas tão bravias e irreconciliáveis, espalhando em cada litoral do Mediterrâneo, a boa semente do Evangelho de Cristo.

3) Data da composição do livro - Se os Atos dos Apóstolos tivessem sido escritos após a execução de Paulo pelas autoridades romanas, certamente Lucas, excelente historiador que era, teria feito menção ao fato. Aceita-se geralmente que Paulo foi executado no ano 64. Logo, Atos foi composto entre 61 e 63. O ano 61 está mais de acordo com os acontecimentos que se deram logo após a prisão do apóstolo em Roma. Teria ele realizado o seu intento de visitar a Espanha? (Rm 15.14,28).

Por conseguinte, os Atos dos Apóstolos também foram escritos antes da queda de Jerusalém que se deu no ano 70.
 

Sobre o primeiro leitor de Atos

Lucas endereçou tanto o seu evangelho como os Atos dos Apóstolos a um nobre romano, de ascendência grega, conhecido simplesmente como Teófilo. Em grego, este nome significa aquele que ama a Deus. Acerca desse personagem, temos várias hipóteses.

1. Um novo convertido. Do prólogo do Evangelho de Lucas, logo depreendemos: Teófilo, de fato, era um homem nobre e de elevada posição social. Haja vista que Lucas usa um vocativo mui próprio às autoridades: “excelentíssimo Teófilo” (Lc 1.3).

Já em Atos, Teófilo é tratado não como autoridade, mas como alguém bem próximo de Lucas: “ó, Teófilo” (At 1.1). O que se conclui de ambas as passagens? Teófilo veio a converter-se com a leitura do Evangelho de Lucas e, agora, já parte do corpo místico de Cristo, lê os Atos dos Apóstolos, a fim de se inteirar de tudo o que o Espírito Santo estava fazendo na Igreja e através da Igreja.

Que exemplo deixa-nos Lucas. Para ganhar uma única alma, escreve todo um evangelho, narrando tudo o que Jesus fez e expondo de forma sistemática tudo o que o Mestre ensinou. Nesse empreendimento, não poupou estilo nem arte. Por que não agimos com esse mesmo amor? Quantas pessoas não poderíamos nós ganhar para Cristo com uma única carta? Ou com um singelo bilhetinho? Ou ainda com um e-mail que não nos furtaria nem dois minutos? Sim, dois minutos que irão proporcionar a um amigo, irmão ou vizinho, toda uma eternidade ao lado de Cristo.

2. O financiador da obra. Nos tempos bíblicos não eram poucos os mecenas. Aqueles homens ricos e mui abastados que, amantes das artes, resolviam subsidiar um escritor, um pintor ou um escultor. Por isso supõem alguns estudiosos ter sido Teófilo um desses financiadores. Sabendo dos pendores literários de Lucas e de seu projeto em reconstituir a vida, ministério e paixão de Nosso Senhor, achou por bem subsidiá-lo. Mais adiante, Lucas brinda-o com o relato da expansão da Igreja de Cristo no poder do Espírito Santo.

Esta hipótese, porém, não resiste a uma análise mais aprofunda e sistemática.

3. A comunidade cristã primitiva. Alguns acham que Teófilo não passa de um emblema da comunidade cristã primitiva. Logo que o seu nome significa, em grego, aquele que ama a Deus, dizem que tanto o terceiro evangelho, como os Atos dos Apóstolos, foram destinados a todos os que receberam a Cristo Jesus como seu bastante salvador e, agora, dedicam-lhe um amor que se acha acima de todos os amores.

Apesar da piedade desta teoria, ela também não resiste a uma pesquisa mais consistente. Na verdade, era Teófilo alguém das relações pessoais de Lucas. Alguém que veio a converter-se com a leitura das obras desse escritor tão genial que foi o médico amado.
 
A narrativa teológica e apologética do livro de Atos

Sempre exato e preciso em suas informações, Lucas divide sua narrativa em episódios rigorosamente encadeados, objetivando mostrar o avanço sistemático e logístico da Igreja de Cristo, embora pareça que esta, logo no início, haja se expandido de maneira espontânea.

Como bom teólogo que era, Lucas vai apresentando provas e evidências que dão foro às doutrinas cristãs. Nisto, destaca-se ele também como um dos maiores apologistas das Sagradas Escrituras.

Sua pneumatologia, por exemplo, apesar de não sistematizada, é mais do que desenvolvida. Apresenta o Espírito Santo não como uma força impessoal, mas como a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. No que tange ao batismo com o Espírito Santo, Lucas prova, em três distintas ocasiões, que o fenômeno observado em Atos capítulo dois é de fato acompanhado pela evidência física do falar noutras línguas (At 2.4; 10.44-47; At 19.6). O mesmo se dá com as demais doutrinas. E a sua cristologia? Quer diante da comunidade judaica, quer diante da grega, ele mostra, através da ação dos santos apóstolos, que Jesus era e é verdadeiro homem e verdadeiro Deus.

Assim podemos dividir os Atos dos Apóstolos: eventos pré-pentecostais, eventos pentecostais, a expansão da Igreja em Jerusalém, na Judéia e Samaria e entre os gentios.

Eventos pré-pentecostais

Dois foram os principais eventos que precederam a efusão do Espírito Santo no Pentecostes: a ascensão de Nosso Senhor e a eleição de Matias para ocupar o lugar menosprezado por Judas Iscariotes. Não podemos olvidar da Comissão Missionária que Jesus Cristo confiou aos seus discípulos.

1. A comissão missionária. Antes de ascender aos céus o Senhor Jesus deixa aos seus discípulos duas recomendações. Em primeiro lugar, não deveriam eles se preocupar com o eventual advento do império de Israel que, na época de Salomão, alcançou a sua maior expressão política, econômica e social. Deveriam eles, agora, ater-se à expansão do Reino de Deus. Após a efusão do Espírito, começariam eles por Jerusalém, percorreriam toda a Judéia e Samaria até que viessem a alcançar os confins da terra.

A recomendação do Senhor Jesus era mais do que clara; era explícita: “Respondeu-lhes: Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou pela sua exclusiva autoridade; mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra” (At 1.7,8).

Essa ordem do Cristo justifica toda a narrativa do livro. Os Atos dos Apóstolos existem porque o Senhor Jesus determinou aos discípulos permanecerem em Jerusalém até que, do alto, fossem revestidos do poder de Deus. Batizados já com o Espírito Santo, não permaneceriam inertes, contemplativos. Mas, começando de Jerusalém, alcançariam os longes desta terra que nos deu o Senhor. Os Atos dos Apóstolos, por conseguinte, existem porque os discípulos obedeceram ao mandato do Cristo. É o que justifica a existência do livro.

2. Ascensão de Cristo. A subida do Cristo ressurreto e glorioso ao céu, não foi um engenho mitológico criado por Lucas, mas um fato histórico testemunhado por centenas de pessoas (At 1.15; 1 Co 15.6).

A ascensão do Senhor tem de ser vista também de duas perspectivas doutrinárias: paracletológica (At 1.4,5) e escatológica (At 10.11). Ou seja: a efusão do Espírito Santo, que se deu no Dia de Pentecostes (At 2) e a parousia que se dará a qualquer momento, conforme garantem as mesmas Escrituras.

3. A eleição de Matias. A eleição de Matias para ocupar o posto desprezado por Judas Iscariotes é o segundo evento pré-pentecostal mais importante registrado por Lucas (At 1.12-26).


A escolha do substituto de Judas tem de ser encarada como um capítulo importantíssimo da História da Igreja Cristã. Além do mais, foi o próprio Espírito Santo quem constrangeu a Pedro a presidir a reunião que culminou com a escolha de Matias. A Igreja não poderia ser inaugurada com o colégio apostólico incompleto.


                             A ascensão de Cristo e a promessa de sua vinda 

Jesus Cristo de Nazaré é apresentado nos Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas (Sinóticos) e João como muito mais que um rabino judeu, um grande professor ou um ousado profeta do século I. Os quatro evangelistas afirmaram que Jesus Cristo é o tão esperado Messias de Israel, o seu Libertador e o Deus encarnado! Dessas afirmações, denota-se a seguinte sentença: “Toda a humanidade será julgada um dia, com base nas suas respostas a este Jesus” (Jo 1.1-14 cf. 8.12-19). Qual Jesus lhe foi apresentado? O que está morto ou o ressurreto? A resposta, positiva ou negativa, a essas questões é fundamental para determinar em que a sua fé está baseada. Nossa oração é que ela esteja no “Cristo, o Filho do Deus vivo”(Mt 16.16).  
O Cristianismo só é possível quando se recebe, como verdade absoluta e irrecorrível, todos os fatos da História da Salvação. Os que buscam subtrair o sobrenatural da Bíblia Sagrada, considerando-o um mero recurso literário, atentam-lhe contra a origem divina. Por conseguinte, se não aceitarmos a História Sagrada na íntegra, seremos forçados, por uma questão de lógica e congruência, a rejeitá-la por inteiro.
No campo da teologia bíblica, não se pode dissociar o dogma da verdade histórica: aquele sem esta não passa de um mito. Por conseguinte, só é possível acreditar no Jesus Histórico se recebermos como verdade inquestionável tanto a sua concepção virginal como a sua ressurreição e ascensão física aos céus, onde está à destra de Deus. Na teologia autenticamente bíblica, não se pode separar o Cristo Histórico do Cristo anunciado na mensagem dos apóstolos.

A HISTORICIDADE DA ASCENSÃO DE CRISTO

A ascensão de Cristo, por conseguinte, não pode ficar circunscrita ao dogma teológico; é teologia e dogma, mas é também um fato histórico incontestável. Lucas deixa bem claro que a sua narrativa é baseada em provas incontestáveis (At 1.3).
Data da ascensão. De maneira geral, aceita-se que o Senhor Jesus foi assunto aos céus no ano 34 de nossa era. As pequenas divergências cronológicas não desmerecem nem desacreditam o fato histórico (Mc 16.6; At 2.32; 1 Ts 4.14).
 Lugar da ascensão. Jesus encontrava-se no Monte das Oliveiras com os seus discípulos quando ascendeu aos céus. Situado a leste de Jerusalém, a 818 metros em relação ao nível do mar, acha-se este monte intimamente ligado à vida e ao ministério Cristo.

 As testemunhas da ascensão. Depreende-se que aproximadamente 120 pessoas hajam presenciado a ascensão de nosso Senhor (At 1.15). Quanto à sua ressurreição, afirma Paulo, foi testemunhada por mais de quinhentos irmãos, a maioria dos quais ainda vivia quando Paulo escreveu a sua Primeira Epístola aos Coríntios (1 Co 15.6,7). Quem poderia, num tribunal, contestar o depoimento de tantas testemunhas? Aliás, segundo a Bíblia, a declaração de duas ou três testemunhas oculares já era mais do que suficiente para encerrar qualquer polêmica (Dt 17.6; 19.15; Mt 18.16; 1 Tm 5.19).

(NOTAS LIÇÕES CPAD,1997 )

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